Sou uma ultra-trailista!!! Com o batismo numa das provas mais bonitas, senão a mais bonita, em que
participei. Foram 52 km, a dois, de paisagens e caminhos deslumbrantes. Se
juntarmos a isso o desafio que cada km representava, conseguia escrever um
conto só a tentar descrever-vos o que é fazer o Ultra-trail dos Abutres. Não
vou escrever um conto (vou-vos poupar a isso ;-)), mas nas linhas que se seguem,
que não são poucas, vou procurar “resumir” o que foi para mim esta aventura…
Este desafio foi-me lançado pelo o meu mais que tudo – o Jorge (como não
podia deixar de ser!). Nunca me tinha imaginado a fazer um ultra-trail, até
porque sei bem as “porradas” que levo nos “normais”, mini, “pequeninos” –
nestes o equilíbrio entre a dificuldade e a superação é perfeito! Eu chamava de
loucos aqueles se metiam nestas “grandes” andanças. Mas “o peixe morre pela boca” e lá me deixei
meter nos 50km... e em boa hora o fiz.
Não pensei em não tentar fazer mas
confesso que, com o aproximar do dia, um nervoso miudinho começou a apoderar-se
de mim. Iria estar muito frio, muita chuva? seria capaz de estar tanto tempo em
prova? seria capaz de superar os trilhos mais técnicos? Penso que já partilhei
que adoro trilhos e já participei em muitos, mas continuo com um medo enorme (e
falta de jeito) para as descidas... e quanto mais técnicas pior. Mas com dúvidas
ou sem elas, se aceitei o desafio iria
tentar supera-lo.
Dito e feito. Dormida em “solo duro”,
acordar às 6:30 da manhã, tentar comer massa cozida de pequeno almoço (baahh!),
vestir a “melhor” das nossas roupitas e os respectivos acessórios (tudo pensado
e preparado de antemão... pelo Jorge, claro!).
Às 7:45 já estávamos prontos e na manga para partir. Um olá aqui, outro
ali e... zás, partida. Não foi bem “zás”,
foi mais: “vamos a isso que ainda faltam 52 km”. J
Assim que começou, um atleta cai mesmo à
nossa frente (resultado das pressas de quem começa atrás mas quer ir à frente),
um pouco mais à frente, outro “estacionado” pelo que parecia ter sido uma queda
em cima do braço. Começo a pensar “Se é para cair (e eu caio muito) que seja no início, quando ainda não dei o litro”... Pouco depois, pimba,
Ana no chão! Derrapagem numa curva mais apertada. Nada de mais. Um pouco à
frente, o joelho. Começo a sentir uma dor no joelho, a apanhar a canela... e
ainda nem 10 km tínhamos. “Mas que vida
a minha, mas isto vai ser assim até ao fim?!?!”. Nesta fase, já as paisagem se começavam a
mostrar - lindo, um privilégio poder correr com aquele cenário como companhia.
O Jorge a olhar para mim e a ver-me com cara de poucos amigos, imaginei logo o
que devia lhe estar a passar pela cabeça: “Esta miúda vai ficar por aqui, pára-me
no próximo abastecimento...” E não sei se não ficava. Mas ao tirar uma braçadeira que tinha no joelho a dor
passou e o ânimo voltou. E pensei, 10km
já estão, agora vou ter que acabar isto senão foi esforço para nada. Um
começo atribulado (como são quase todos). Abastecimento dos 13km, próximo
objectivo: chegar ao 29km.
Tinha estado a ver a um gráfico da
dificuldade técnica ao longo da prova. Pelo que me lembrava, a prova ira se
tornar mais difícil a partir desse ponto (mais coisa, menos coisa): subidas mais complicadas, descidas impossíveis.
Começo a gerir a prova, entre o esforço que imaginava ser necessário (e apenas
imaginava) e as “pernas” que tinha. Embora com indicação no dorsal que tinha um
abastecimento aos 24km, eu estava concentradíssima nos 29km. “Tu consegues Ana!
E depois com 29, são pouco mais de 20 para acabar... “ E foi assim que seguimos.
Cada um com as suas pernas, mas sempre sob a orientação do “mestre
ultra-trailista” e de acordo com a Carta
de Boas Práticas. Primeiro uma grande subida e, depois dos 24, uma descida
num trilho espetacular mas muito técnico. Nesta descida, às páginas tantas, escorreguei. Aqui foram as indicações do Jorge
que me valeram: “agarra-te aos ramos”, o que fiz sempre que dava. Quando caí, fiquei pendurada nos galhos e
enrolei-me toda nuns arbustos que ladeavam a arriba. Foi aparatoso, parecia uma
cena tirada num filme do 007, mas não mais que isso, sem mazelas. A cerca de 3
km dos 29, tivemos que acelerar para garantir que passávamos antes das 6 horas
limites. Passamos com 5h35m (sim, este tempo todo para fazer “só” 29km).
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| Teoria do Nós - Trilho dos Abutres 2016 |
Próximo objectivo: 42 km. Aqui pensei: “Se
consigo fazer os 42km, faço isto! Ficam a faltar 10km, o que faço num dos meus
treinos” Saímos do abastecimento e começamos logo com a subida da Srª Piedade de Tábuas. Simplesmente magnífico! Esta iria
ser a parte mais difícil dos Abutres, tínhamos que subir, de novo, ao ponto
mais alto da prova e em trilhos com uma dificuldade técnica muito elevada. E
tínhamos 4h30m para 13 km. Isto dava para ir devagar a tirar selfies, pensam
vocês! Dava, dava... mas não é bem assim. A primeira parte da subida, mais um
trilho lindo, foi no meio da vegetação, com cursos de água e com, volta e meia,
um “cheirinho “de escalada.
Nestas alturas, é tanta a atenção que
damos ao terreno, tanto o esforço físico, temos os níveis de adrenalina tão
altos e, ainda, procuramos contemplar os caminhos que estamos a percorrer, que
nem damos conta do tempo passar. Quando o trilho se torna mais fácil, é nessa
altura que olhamos para o relógio e procuramos “ganhar” tempo. Subimos a bom
ritmo até aos 37km, onde encontramos um abastecimento com febras e minis
(estavam taaaooo boas, fizeram-nos taaaooo bem!)... e muito frio Estávamos no topo! Tinha batido o meu record pessoal de distância, provavelmente de
altimetria também, e só faltavam 15 km para o meu troféu finisher. Para o Jorge foi ali que a prova foi “conseguida”
(desabafou no fim comigo), mas para mim ainda faltava a descida de 5km até aos
42km. Mesmo com tempo, eu queria aproveitar o mais que podia para fazer terreno e, enquanto pude, dei-lhe
“gás”. Escusado será dizer que foi “sol de pouca dura”, passados 1.5km já
estávamos de novo em trilhos muito técnicos a descer (o meu “calcanhar de
Aquiles”). Os km que se seguiram foram percorridos a fazer contas
tempo/distância: não tinha ido até ali para ser “barrada” nos 42km... é que nem
pensar! Ainda voltamos a subir, uma parede curta em distância mas de respeito
em altura (as coxas não me deixaram ficar mal... nem a mão do Jorge que
aparecia ali sempre que precisava). Foi o Jorge que avistou primeiro o ponto de
controlo e quando me disse que era ali, a uns 500m, invadiu-me uma alegria: “Ia conseguir fazer os Abutres!”
Estávamos com 9h de prova quando
arrancamos para os últimos 10.000 metros. A partir daí andamos bem até porque o
terreno permitia. “Bem” se tivermos em consideração que já estávamos com mais
de 40 km nas pernas e com D+ de 2600. Ainda tivemos que descer a margem de um
rio, bem menos complicado que os trilhos anteriores, que tentamos (e
conseguimos) fazer antes do cair da noite. Chegamos ao último dos
abastecimentos, aos 47km, pusemos os frontais e arrancamos para os últimos 5km já de noite. Ainda tivemos
direito a uma surpresa: cerca de 2,5km em “rio de lama”. De noite, não havia
muitas decisões a tomar na escolha do melhor lado para passar a lama, por isso
foi avançar. Íamos derrapando aqui e ali, a cada passada os sapatos ficavam
colados na lama e até deu direito a um “mergulho”
em lama até à cintura (meu, claro!).
Aos poucos, com a escolha de terreno a
cargo do Jorge, lá conseguimos impor ritmo e sair dali, chegamos à estrada, com
as luzes de Miranda do Corvo a gracejar-nos. Estava feito :-) Mais 2 km em estrada, a conversar e a
rir... e a correr (sim, ainda conseguia). Uma paragem “artística” a 100m da
meta para pôr à vista a t-shirt do Teoria do Nós, e a correr de mão dada, passamos a linha da meta! Com 11h02m de prova
e muito mais de emoções e momentos sem igual.
Façam como NÓS: desafiem-se e superem-se... a dois!
-Ana-