
Na mitologia grega, o
Monte Olimpo é a morada dos
Doze Deuses do Olimpo, os principais deuses do panteão grego.
Foi assim que me senti quando terminei os 117 km do evento Ultra Sicó 2016.
Sinto-me vaidoso com a minha performance, levei o meu físico aos picos e saí ileso, sempre na companhia dos Deuses do Olimpo.
Não saí vitorioso de uma prova de trail mas sim de uma prova de "vida".
Naquelas horas infernais, em condições climatéricas impróprias para humanos (sim, porque os únicos seres vivos andantes naquelas serras, àquelas horas, só mesmo aquele punhado de doidos), pensamos apenas em sobreviver. É engraçado saber aonde a nossa mente nos leva quando sujeita a provações. E talvez por isso, algumas almas, como eu, se sujeitam a façanhas dignas dos deuses do Olimpo.
Agora tudo o que se possa dizer de dor/prazer, quente/frio, chorar/rir ganha uma nova dimensão, tudo passa a
relativo.
Mas, atrás de um homem, há sempre uma grande mulher!
Bastava ver aquela carinha da
MMQT (
minha mais que tudo), nos PA’s, que aquecia a alma, tudo ficava mais fácil. Mais que o físico, o psicológico é o que nos leva a cortar a meta!
Ela lá estava, de pedra e cal, qual vento, chuva ou granizo, com os caracóis aos saltos, a aplaudir, gritar por mim (e não só, foi um grande apoio a vários atletas também).
É isto, a esta filosofia define-se "TEORIA DO NÓS"!
A PROVA… e os deuses
Iniciei os primeiros km, apreensivo mas confiante, na companhia de duas máquinas: José Marçal e Gastão Sousa, amigos de longas distâncias, com muitas estórias em comum. Acompanhava-nos o irritante TLALOC (deus da chuva).
Já nos conhecíamos destas e outras aventuras, por isso conscientes das capacidades individuais e coletivas. Foi com grande tristeza que assisti à desistência do meu amigo Marçal, atingido pelo CRIO (deus do frio) que quase que me levava também mas, depois de dois sopapos do Gastão, lá alinhei a direção. E segui.

Ao km 85, dores nos tendões do pé,
ALGO (
deus da dor) voltava a atacar, recordando o km 87 de 2015, e quase me deitava abaixo outra vez.
Mas NÃO! Desta vez não ia ‘’morrer na praia’’. Gastão de um lado e a MMQT do outro, alinhei novamente a direção e segui, uma energia surgia vinda dos céus. Percebi que APOLO (dispensa apresentações) me acompanhava. Ah grande amigo!
Depois de medicação de recurso, as dores voaram, assim como as minhas pernas, fortes e com uma passada bem ritmada, lá seguimos direitos ao objetivo. Qual FÉNIX qual quê!
A nós juntou-se a Margarida, oriunda de Vigo – Galiza, um pouco debilitada pelo CRIO.
A 4 km da meta o impensável acontecia: Trilho das Cascatas, mais parecia que tínhamos descido ao inferno de DANTE, só que na versão ‘’fria e molhada’’, traçado nas escarpas do rio. Aqui começava a escalada ao Monte Olimpo, penoso, sofrido, desgastante.
Depois de 100 km, 21 horas, as nossas capacidades cabrianas (cabra montesa) eram colocadas em jogo. A nossa autem (latim de "vontade") de conquistar um lugar ao lado de ZEUS, velho amigo, era enorme, uma aura envolvia as nossas almas…
Depois de 21h30 e 117 km talhados, arrancados das garras de TIFÃO (monstro com cem cabeças de serpente), conseguimos um lugar ao lado dos doze Deuses do Olimpo.
Somos considerados semideuses, metade mortais, metade imortais. Os nossos nomes de guerra: GASTONIDIO (deus das pernas soltas) e JORGYOS (deus do bastão iluminante).

Esta aventura grega não seria concluída sem as deusas do Olimpo: AFRODITE (reencarnada na MMQT) e ATENA (deusa da sabedoria, reencarnada na minha amiga Célia).
Naqueles momentos de aperto, em que temos a nossa autoestima aos níveis da inflação em Portugal, é que o conforto de uma palavra nos trás à vida outra vez.
Sem ELA – Ana, não conseguia, tenho a certeza. És o ar para os meus pulmões, és o sangue para as minhas veias! A ti, faço te uma vénia, Deusa do Olimpo!
-Jorge-
'Vita est illis qui ex parte formosius''